Gnocchi

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Todas comeram gnocchi da fortuna ontem? Vinte e nove de fevereiro é dia, hein? Lembro até hoje do 29/02/1996, no auge dos meus dez aninhos, quando cheguei da escola e vi minha avó comendo um pratão deles ao sugo e me explicando que tinha uma tradição de, nessa data, comer gnocchi da fortuna pra atrair dinheiro e que pra isso precisava colocar uma nota de dólar embaixo do prato. Dona Mariza não fez por menos, colocou logo uma de 100 embaixo do dela. Então hoje eu também comi, não ao sugo, mas com manteiga derretida e sálvia, um gnocchi que, finalmente, deu certo!

Faz um tempo que eu ando a procura do gnocchi perfeito, há uns meses postei aqui uma receita que tirei do Food Wishes, blog do simpático chef John. Nas duas primeiras vezes em que segui as instruções do gringo a receita deu certo mas depois… ceús, que desastre! Sabe quando a coisa simplesmente desanda? De um tanto tão tamanho que, certa feita, assim que as bolinhas caíam na água fervente e subiam – questão de segundos – elas se desmanchavam e viravam uma papa. Daquelas que lembram os desesperadores momentos de infância em que você tem uma lição-de-casa “recorte e cole”, percebe que a cola acabou e sua mãe fala pra misturar água com farinha que vira cola, você acredita, mistura e termina com uma papa nojenta que acaba por grudar não apenas aqueles recortes mas também TODAS as outras páginas do caderno.

O pior de tudo é que eu tinha comprado batatas especiais, umas que, ao contrário daquelas outras a granel que ficam largadas ao léu nas bancas do mercado, vinham em um saquinho vermelho com uma propaganda enganosa dizendo que aquelas sim fariam o consumidor feliz, eram selecionadas. Rá rá rá Selecionadas pelo produtor pra pregar uma peça na amiga cozinheira. Depois desta malfadada empreitada deixei o projeto gnocchi engavetado até o último domingo, quando estive na feira. Aproveito o momento pra uma rápida digressão, A-D-O-R-O feira! Os produtos com uma qualidade infinitamente melhor do que qualquer mercado ou horti-fruti, o atendimento, a degustação e, principalmente, o preço; fecha parênteses. Cheguei numa barraca que só vendia batatas e fiquei olhando pra elas com uma carinha meio perdida, até que a feirante me perguntou para o que, afinal de contas, eu queria as batatas.

- Gnocchi! Qual a melhor variedade pra gnocchi?

- Ah! A batata suja, essa maior aqui, marronzinha. Essa é a melhor, não só pra gnocchi, pra qualquer coisa que você quiser.

- Me vê um quilo, então.

E voltei pra casa, mas ainda desconfiada da receita do chefe da gringa. Por via das dúvidas (ou descarga de consciência como se diz por aí), resolvi consultar algum livro, como o único de técnicas culinárias que eu tenho em SP é o da Cordon Bleu, fui nele mesmo, apesar de estar a procurar de uma receita italiana em um livro de escola francesa escrito em inglês – é que aqui em casa somos todos muito internacionais. Mas não é que a receita me cativou logo de cara? Dizia que ela pode variar de acordo com o tipo de batata que você tem disponível. Faz sentido, né? Então seguem abaixo minhas dicas depois de muita tentativa e erro (erros bem errados, é bom salientar) para o seu gnocchi dar certo:

- Leve em consideração o tipo de batata que você tem: se for mais farinhenta não precisa de ovo, se for mais durinha (waxy é o termo, algo como “cerosa” em português) precisa.

- Farinha sempre, mas só pra dar uma liga, nada de pesar a mão, hein? É uma coisa assim de feeling mesmo, quando você sentir que deu o ponto, pare de agregar farinha.

- Cozinhe bem as batatas na água, até ficarem bem molinhas, em ponto de purê. Batata meio mole, meio dura não vai amassar direito na hora de fazer a massa do gnocchi e você vai acabar com pelotas duras e nada agradáveis, sem contar que o gnocchi não vai cozinhar direito depois.

- Cozinhe-as com casca, para segurar um pouco a umidade delas.

- Amasse-as bem amassadinhas, pode ser com garfo, amassador, passa-verdura…

Estando as batatas devidamente cozidas e amassadas, só te resta juntar a farinha e fazer as cobrinhas que depois serão cortadas em cubinhos. Panelão de água fervendo, jogue os gnocchi lá dentro, eles primeiro afundam pra depois virem nadar na superfície, onde devem ficar por uns 20 segundos. Tire com uma escumadeira, bote pra escorrer e coma com seu molho preferido.

Quanto à manteiga com sálvia, primeiro a manteiga deve ser derretida, depois joga a sálvia nela e deixa a erva dar uma tostadinha pra soltar bem o seu sabor, aí junte o gnocchi.

Os gnocchi não ficaram lindos, mas tavam BEM gostosos

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Sobre Ângela

Professora, mestranda e dona de casa. Ou seja, a pessoa que, na concepção dos outros, menos trabalha no mundo.

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