Dona-de-casa?

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“Acho que eu deveria ficar triste por estar feliz com isso”

Foi uma frase que ouvi outro dia – durante o lançamento da nova linha Scotch Brite da 3M – vinda de uma das outras moças que lá estava, ao ver, não me lembro exatamente, se um pano de chão que seca mais eficientemente e ainda por cima é roxo ou se um esfregão com haste flexível, que também me encantaram. Eu sou o tipo de pessoa que fica feliz por ter a opção de comprar um pano de chão roxo e felpudinho, sem que isso desperte qualquer sentimento contraditório dentro de mim. Por que eu não ficaria feliz ao tomar conhecimento de produtos que foram desenvolvidos para facilitarem a minha vida?

Acontece que, hoje em dia, parece ser extremamente difícil assumir que você faz esse tipo de tarefa. Pegue qualquer revista dedicada ao público feminino que não seja a Manequim e me diga: Quantos anúncios de sabão em pó você encontrou? Nenhum, não é mesmo? É que a mulher moderna não lava a louça, não passa roupa, não limpa a casa. É claro que não, ela não faz nada disso porque não tem tempo; a mulher moderna é independente financeiramente, é diretora ou gerente de multinacional, ela trabalha muito e então não tem tempo para se ocupar com essas tarefas domésticas chatas e que parecem ser até meio rebaixantes. Ela é Mulher, com M maiúsculo, não uma mulherzinha qualquer, dessas que se preocupa com marca de sabão. Isso tudo, inclusive, estraga as unhas e resseca as mãos.

Se limpar a casa é uma atividade que está no índex da Mulher Moderna, cozinhar é uma tarefa que transita entre a lista negra e um talento que pode ser considerado louvável, contanto que sejam receitas gourmet executadas em panelas de grife. Já ouvi gente encher a boca pra dizer que “só entra na cozinha por engano”, como uma forma de afirmação por contraposição àquele tipo de “mulherzinha de forno e fogão”. Achei de uma arrogância e ignorância solenes. Sou do tipo que ficaria felicíssima se ganhasse uma panela de presente de dia dos namorados  e não tenho vergonha nenhuma em admitir isso. Cozinhar não é cool só em utensílios caríssimos ou com ingredientes exóticos, ao contrário do que muita gente possa pensar. Come-se com muito mais prazer e atenção uma refeição que levou certo tempo para ser preparada do que uma que só demorou o tempo de abertura do pacote para ficar pronta.

Não vejo problema nenhum em não gostar de passar pano no chão e dizer que não gosta; afinal, quem é que curte fazer isso? Especialmente por ser o tipo de trabalho que nunca acaba, sempre há louça para ser lavada, janelas limpas se sujam novamente e assim por diante. O que me parece é que há uma dificuldade imensa em assumir que se faz, em alguns casos até mesmo com prazer, esse tipo de tarefa sem que isso de alguma maneira degrade a independência feminina que foi conquistada a duras penas. É esse olhar crítico sobre quem cuida da casa e assume que faz isso  que me incomoda. Principalmente pois ele parece vir, na grande maioria das vezes, de outras mulheres. Como se a gente traísse o movimento, ou botasse tudo a perder porque está alegrinha ao ter encontrado panos de chão com cores descoladas. Não me sinto menos independente quando passo uma vassoura e nem mais feminina; só acho que a gente poderia falar sobre isso mais livremente, sem qualquer tipo de julgamento ou olhar de pena, principalmente se esses vierem de outras mulheres.

 

 

 

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Sobre Ângela

Professora, mestranda e dona de casa. Ou seja, a pessoa que, na concepção dos outros, menos trabalha no mundo.

Comentários

  1. Acho que é a primeira vez que comento seu blog, Ângela. Sigo e busco inspiração nele, seguidora observadora até então. Mas hoje você tocou num ponto que me fez desejar compartilhar a minha visão sobre o tema.

    A liberdade de fazer o que se deseja é algo que não vem fácil.

    O mantra da minha geração é que uma mulher que não tem independência financeira estaria fadada à submissão dentro do núcleo familiar. E isto significava a redução do ser humano, gênero feminino, a uma condição que me causou arrepios, que eu simplesmente não desejava para mim.

    Sabemos que as características de gênero, os papéis de acordo com o sexo, refletem aspectos sociais, culturais e eu sabia também que o que a sociedade tinha para me atribuir não era um papel desejável.
    Claro que tudo tem seu contexto histórico. E nesta época, a tal independência financeira, que seria o meio que me permitiria a liberdade de escolher o que eu desejava para a vida, só tinha um jeito de ser conquistada. E era conquistada com um “emprego” destes.

    Então, muitas mulheres fizeram este caminho. E não foram nada bem vistas, nem por outras mulheres, nem pelos homens.

    A todo momento da histórica, temos situações como esta, às vezes é ir até o extremo e voltar, esticar a corda até o seu limite e depois voltar. É o jeito de se mover, de dar alguns passos.

    Somos “primados” e a ruptura com comportamentos esperados não se faz de um dia para outro e muito menos sem conflitos, internos ou externos.

    Muitas mulheres viveram e algumas vivem até hoje conflitos decorrentes da escolha que fizeram na época, como por exemplo, a questão da maternidade, que para mim, é algo inconciliável com o “emprego”. Estes conflitos são o preço da liberdade.

    Cada geração tem seu(s) conflito(s). E de cada geração é cobrado um preço diferente para a liberdade de ser fazer o que se deseja.

    Então, que vocês vivam os seus conflitos e encontrem a liberdade para fazer o que desejam.

    Por que hoje, é possível atingir a tal independência financeira sem sair de casa. Há alguns anos, isto era algo impossível, inconciliável, não era uma escolha possível. Sem a ruptura feita no passado, esta escolha não seria possível hoje. Sem mudanças no estilo de vida, tecnologia e um monte de outros aspectos da vida, esta escolha não seria possível hoje.
    Por isto, aproveitem as mudanças do curso da história, das “ocupações” possíveis, dos momentos sócio-culturais distintos e exercitem a liberdade de fazer o que desejam. Mas, não esperem fazer isto sem conflitos (internos ou externos). É a vida. E para vive-la, tem um preço.

    PS. Minha eterna admiração para quem domina todos estes ofícios e ainda consegue explicar o que é “ponto de puxar fio” para quem não tem a mínima ideia de que isto existe.

  2. Priscila diz:

    Adorei o texto e gostaria de compartilhar um pouquinho da minha história. Hoje sou dona de casa por escolha e opção, e tenho muito orgulho. Acho que foi a primeira decisão que tomei sozinha, sem influência de ninguém. Tive a oportunidade de ser empresária, trabalhei quase 10 anos na área de eventos. Tive vários funcionários, clientes, fornecedores, enfim conheci muita gente.Mas sabe quando você não esta feliz, não se sente realizada, não tem ânimo pra levantar de manhã? Assim era minha vida, empurrada, conduzida, forçada.Eu já tinha um filho nessa época, mas não sabia o que era ser mãe, nem tinha tempo pra ele.Marido então, coitado…Esposa não conhecia.Em casa quem comandava era a empregada. Cuidava de tudo, tudo, tudo mesmo. Eu não fazia ideia do que tinha ou nem tinha na minha casa.Então um dia…me deu uma luz, Divina claro. Joguei tudo pro alto, me desfiz de tudo, mudei minha vida e escolhi ser Dona de Casa, dona da minha vida, dos meus filhos, do meu marido. Hoje me sinto livre por amar o que faço. Sou dessas que fica ligada nas novidades pra melhorar meu afazeres,  leio textos, histórias de outras donas de casa, me motiva. Tenho mais dois filhos e faço questão de aprender ser mãe. Quero ser uma boa esposa e uma dona de casa de verdade. Preconceito? Sofri um monte. Me chamaram de louca por deixar o que eu tinha e pior pra ser dona de casa. Quando respondo algum questionário onde consta profissão,  e falo dona de casa,  parece que não é nada ficam me olhando esperando uma segunda opção.  É muito estranho,  pois só nós sabemos o quanto somos importantes.

  3. Ângela diz:

    Oi, Priscila!
    Que bom que gostou do texto e fico super feliz de saber que você está contente com a vida que optou. Acho que você pode ser o que quiser, dona-de-casa ou “mulher de negócios” ou até mesmo uma mistura saudável de ambos; o que importa é estar bem consigo mesma, segura da sua decisão, não é?
    Beijo

  4. Ângela diz:

    É, Tata, o duro é bancar as escolhas que a gente faz e se permitir mudar de idéia, acrescentando ou eliminando ao longo do caminho. O que me levou a escrever o texto foi a impressão de uma postura de inflexibilidade que tenho visto por aí e que muito me assusta. Como eu disse pra Priscila, acho que o importante é você estar feliz e tranquila com a escolha que fez, seja ela qual for.
    E fico contente de ver que até uns dedos queimados os meus escritos já te renderam!
    Beijão!

  5. Clara Meire diz:

    Olá! Realmente demais esse blog, hein? Estava de passagem e meu almoço em São José do Rio Preto na verdade foi na cidade vizinha de Cedral. O http://restaurantecedralat.com.br/ agora recomendo mesmo, um almoço de qualidade e muito sabor posso garantir nesse restaurante self service. Um Beijo!

  6. maria diz:

    Achei otimo seu ponto de vista,pois tenho observado um bando de mulheres que nao sabem cozinhar,relaxadas consigo e com a casa,nem sabem fazer nada,ou seja o sistema conseguiu o que queriam: um bando de gente que so produz e gera dinheiro,porem a vida pessoal e familiar que se dane afinal pra isso que existem os terapeutas.
    Querem coisificar o ser humano e o pior eh que existem milhares de pessoas caindo nesta farsa pois alguem ganha com este lucro todo.
    Trabalhar fora porque precisa eh uma coisa,mas virar escravo do trabalho eh outra.

  7. Aline Calixto diz:

    Ual, creio que é o melhor texto que li nos últimos meses! E concordo plenamente. Sou Administradora, especialista em Docência no Ensino Superior, sou funcionária pública, esposa, mãe de três gatos e um cachorro e dona de uma casa simples, porém uma mansão na medida certa para os meus sonhos e anseios. E, verdadeiramente, penso em um dia, me tornar de fato, uma bem-sucedida dona de casa. Vejo que as mulheres ganharam muito no quesito profissional, entretanto, muitas perdem dia-a-dia a realização de “coisas banais” como organizar o próprio lar, ter carinho em preparar a alimentação, organizar um almoço/jantar para os amigos/familiares, enfim…progredimos tanto, ganhamos papéis, titulações, e perdemos a nossa essência, que é muiiito longe de ser Amélia, mas mulheres que podemos gostar e escolher ser dona de casa por opção e prazer. Seu blog é muito interessante. Parabéns.

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